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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Oxi é marketing do narcotráfico

Pedras de oxi viciam mais rápido que cocaína em pó e crack, mas não passam de pasta-base de cocaína, dizem autoridades.

Por Cristine Pires para Infosurhoy.com – 15/09/2011


       Pedras de pasta-base de cocaína apreendidas como oxi e estudadas por especialistas não apresentam adição significativa de querosene, cal virgem ou gasolina. Traficantes costumam alegar que esses seriam os ingredientes que deixariam o oxi mais potente do que as demais drogas, diz a Polícia Federal. (Cortesia do 6° Batalhão da Polícia Militar do Paraná)
Pedras de pasta-base de cocaína apreendidas como oxi e estudadas por especialistas não apresentam adição significativa de querosene, cal virgem ou gasolina. Traficantes costumam alegar que esses seriam os ingredientes que deixariam o oxi mais potente do que as demais drogas, diz a Polícia Federal. (Cortesia do 6° Batalhão da Polícia Militar do Paraná)
PORTO ALEGRE, Brasil – Mais barato e devastador que o crack, o tão falado oxi não passa de estratégia de marketing dos traficantes para despertar a curiosidade dos usuários e fazer novos dependentes.
A Polícia Federal concluiu a segunda etapa de estudo científico em pedras de oxi apreendidas no Brasil. As autoridades constataram que não se trata de uma nova droga, e sim de cocaína na sua forma livre ou pasta-base.
Com o resultado da pesquisa, a Polícia Federal alerta que, ao denominar o oxi de nova droga, os traficantes querem apenas estimular a experimentação, popularizando o consumo, assim como aconteceu com o crack.
Ao ser anunciada como uma novidade pelos criminosos, o oxi faz novos dependentes a cada dia. Isso porque seu poder de viciar é muito maior do que o crack. Além disso, o preço da pedra também é bem inferior.
O problema é que esta pasta-base chamada de oxi tem até 85% de cocaína. O percentual é muito maior do que o encontrado no crack, que tem de 29% a 47% de cocaína em sua composição. Assim, o efeito do oxi é mais forte, e a dependência química se dá de forma muito mais rápida, explica a Polícia Federal.
A conclusão foi apresentada por peritos criminais após análise de pedras recolhidas no Acre, estado considerado a porta de entrada da droga no país, na fronteira com o Peru e a Bolívia.
Foram verificadas 20 amostras obtidas pela Polícia Civil e outras 23 pela Polícia Federal entre os anos de 2010 e 2011.
Das 23 amostras da Polícia Federal, 57% eram pasta-base de cocaína e 43% pasta-base refinada (que passa por processo de oxidação para ficar mais branca e, com isso, aumentar seu preço no mercado).
Já das 20 amostras da Polícia Civil, 30% eram cocaína em pó (cloridrato), que só pode ser consumida se cheirada ou injetada. Outros 20% eram crack e os 50% restantes dividiam-se entre pasta-base refinada (15%) e não refinada (35%).
O segundo estudo, realizado com apreensões feitas em Brasília, concluiu que, das 34 pedras analisadas, apenas duas eram de pasta-base – o chamado oxi –, e quase a totalidade era de crack.
A suposta nova droga causou um fenômeno perigoso: começou a se chamar de oxi qualquer apreensão de cocaína que pudesse ser fumada, diz a Polícia Federal.
“Isso mostra que a droga entra pelas fronteiras e vai sendo adulterada conforme passa por outros estados, geralmente diluída para o consumo local”, explica o perito criminal federal Ronaldo Carneiro da Silva Junior, que participou dos estudos e assina os laudos técnicos. “Como é de se esperar nesse mercado do tráfico, o oxi é mais uma enganação para barganhar mais usuários e aumentar os lucros dos traficantes.”
O golpe dos traficantes
As pedras de pasta-base apreendidas como oxi e estudadas pelos especialistas não apresentaram adição significativa de querosene, cal virgem ou gasolina. Os traficantes costumam alegar que esses seriam os ingredientes que deixariam o oxi mais potente do que as demais drogas, diz a Polícia Federal.
“A participação desses itens é inferior a 1%, ou seja, resíduo do que é utilizado no refino para extrair a coca da folha e obter a pasta-base”, explica Silva Junior. “Quem consome a pedra do oxi morre mais rápido, e não porque tem querosene ou água de bateria, mas pela concentração da droga, que pode provocar uma overdose.”
Mas as autoridades lembram que os efeitos da cocaína são mesmo muito mais devastadores em quem fuma – caso do oxi e do crack – do que em quem cheira.
No caso do pó branco, a adulteração é comum por parte dos traficantes, que colocam outros ingredientes para fazer render mais a mistura – como fermento, pós de mármore ou amido de milho –, o que acaba diluindo o poder da droga.
Além disso, o entorpecente é absorvido pela mucosa do nariz e demora mais a entrar na corrente sanguínea.
Já a cocaína fumada, além de ter uma concentração muito maior da droga, passa por menos adulterações em processos químicos.

       A Polícia Federal, que acaba de concluir uma segunda análise de pedras de oxi apreendidas no Brasil, assegura que não há nenhuma substância nova no entorpecente. A droga não passa de cocaína na sua forma livre ou pasta-base. (Cortesia da Polícia Federal)
A Polícia Federal, que acaba de concluir uma segunda análise de pedras de oxi apreendidas no Brasil, assegura que não há nenhuma substância nova no entorpecente. A droga não passa de cocaína na sua forma livre ou pasta-base. (Cortesia da Polícia Federal)
Ao ser inalada, a droga passa direto para o pulmão, que é muito mais irrigado de vasos sanguíneos do que o nariz. Assim, a absorção é muito rápida, o que acelera o efeito do tóxico.
Dando um novo nome à pasta-base de cocaína – oxi –, os traficantes passaram a vender uma droga que já era alvo de combate da polícia como se fosse algo novo.
O termo oxi – abreviação para oxidado, do verbo oxidar, que consiste no processo químico de transformação da coca – também não é novo, garante Silva Junior.
“No final da década de 90 já se ouvia esse termo na região da fronteira, pois ele vem do processo de oxidação que a cocaína passa durante o refino”, explica.
A denominação, no entanto, foi ganhando força no Brasil nos dois últimos anos.
A pasta-base, que normalmente entra no país vinda da Bolívia e Peru, é velha conhecida da Polícia Federal.
A primeira vez que foi apresentada como oxi foi em 2005, em Rio Branco, capital do Acre.
“A pasta-base consumida em Rio Branco vem pronta da Bolívia e Peru. Elas são vendidas em pequenas pedras porque não tem laboratório de refino na região”, explica o perito.
A droga também entra por outros estados de fronteira, onde há histórico de consumo de pasta-base, segundo a polícia.
De janeiro a agosto deste ano, a Polícia Federal apreendeu 15.083,88 kg de cocaína, sendo que 76,1% desse total – o equivalente a 11.485,30 kg – foram recolhidos em sete estados que fazem fronteira com países produtores: Amazonas, Acre, Roraima, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná.
Clique aqui para conferir as apreensões por estado.
Desde que a Polícia Federal divulgou os relatórios sobre o oxi, as autoridades de segurança pública de todo o Brasil estão mais cautelosas ao divulgar apreensões.
“Aos poucos estão conseguindo reverter esse quadro de euforia”, diz Silva Junior.
Usuários de oxi se viciam mais rápido
Por conter uma grande quantidade de cocaína, as pedras de oxi provocam o vício mais rapidamente.
“Os efeitos no organismo são devastadores”, adverte o psiquiatra Pablo Roig, diretor de uma clínica de reabilitação. “O oxi provoca doenças no fígado e no coração, devido à maior toxidade da substância.”
Além disso, os usuários costumam consumir muitas bebidas alcoólicas, uma forma de fazer com que a droga seja metabolizada mais rapidamente, explica o médico.
“O oxi também causa diarreia, vômito e náuseas. O uso do álcool suaviza esses efeitos colaterais”, diz.
O oxi traz efeitos secundários que o crack não tem, completa Roig. Por ser o resíduo do refino, o oxi carrega o que há de pior da cocaína, com todas as suas impurezas.
Das mais de 500 pessoas que passam por semana no Centro de Atenção Psicossocial (CAP) em que o médico Flávio Falcone trabalha, a maioria é usuária de crack, oxi e álcool.
“Normalmente o que se vê é a associação das duas dependências”, diz o especialista, que viu o número de atendimentos aumentar muito nos CAPs das cidades de São Paulo e São Bernardo do Campo nos últimos dois anos. “O oxi é uma droga muito barata, o que tem incentivado o uso da substância.”
reportagem enviada por:
Cristine Pires
Jornalista - MTB 7847
crispires@terra.com.br

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