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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O tricô dos presidiários de Juiz de Fora


Em uma penitenciária de segurança máxima em Juiz de Fora, detentos fazem tricô de luxo e exportam para o mundo. É o Projeto Flor de Lótus.
O artesão Carreto, fazendo uma peça de tricô sem nó, técnica inventada pelos próprios trabalhadores.
O artesão Carreto, fazendo uma peça de tricô sem nó, técnica inventada pelos próprios trabalhadores
No começo, não foi fácil. Os outros presos zoavam. Onde já se viu? Homem forte, bruto, condenado por crime perigoso… tricotando!
Mas para Raquell Guimarães, dona da grife Doisélles e idealizadora do Flor de Lótus, fazia sentido. Os presidiários nunca tinham nem segurado uma agulha de tricô e, por isso, ela podia lhes ensinar seu próprio método desde o princípio.
E não só isso: ao trabalhar com presidiários, a Doisélles recebe uma série de vantagens fiscais. Para o sistema carcerário em si, a vantagem é outra: o simples fato dos detentos se ocuparem já diminui a ansiedade prisional.
As maiores vantagens, entretanto, vão para os próprios trabalhadores.

Link Vimeo | Para entender melhor o Projeto Flor de Lótus

“Mas não é perigoso trabalhar na penitenciária?”

É uma cena insólita.
Um pequeno galpão, de paredes coloridas e grades nas janelas, em um presídio de segurança máxima. Dezenas de prisioneiros, todos condenados a prisão em regime fechado por crimes sérios. Eles chegam algemados. São soltos, um a um, por guardas de armas em punho. Nas mãos de cada detento, duas agulhas de tricô que são do tamanho de pequenas espadas. Na prática, estão armados.
E, circulando entre eles, ocupada e empolgada, uma loira, branca, magra, pequenininha.
A qualquer momento, convenhamos, poderiam colocar aquelas agulhas no pescoço de Raquell e exigir, sei lá, um avião pra Cuba.
Mas por que fariam isso?
Os detentos que trabalham para a Doisélles possuem uma ocupação que os distrai do cotidiano infernal da penitenciária; ganham um salário muitas vezes acima do que ganhavam ou ganhariam lá fora; aprendem uma técnica artesanal que tem valor de mercado em qualquer lugar do mundo; perdem um dia da pena para cada três trabalhados; e, por fim, quando saírem, é quase certo de continuarem na empresa, fazendo a mesmíssima coisa que já sabem e gostam de fazer.
É por isso que eles não enfiam uma agulha no pescoço da Raquell.
E por outros motivos também.
Pacheco e Raquell. O Pacheco é gente fina demais.
Pacheco e Raquell. O Pacheco é gente fina demais

A humanidade do preso

Andando com Raquell pelas ruas de Juiz de Fora, seu telefone não para de tocar. São problemas em uma das fábricas brasileiras, ou no showroom de Tóquio, ou com um comprador corporativo de Paris.
Mas, muitas vezes, é somente uma velha senhora mineira, sozinha no mundo, ligando pra saber do filho, esse bandido perigoso que pra ela sempre vai ser o Carlinhos cuja bundinha limpou, e pergunta pra Raquell como está seu Carlinhos, se está se alimentando bem, se está forte, e só se sente à vontade de ligar porque percebe, pelo carinho da resposta, que Raquell também se importa muito com o Carlinhos, e ela responde que sim, que ele está muito bem, que acabou de fazer um vestido lindo, e que está empolgado com a coleção de inverno, e assim as duas conversam por alguns minutos.
Esse é um dos milagres da Doisélles. Para essas mães, depois de ver seus filhos presos por crimes hediondos, muitas vezes tratados como subhumanos pela polícia, quando iriam imaginar que seriam de novo vistos como gente? Que teriam trabalho honesto? Que contariam com o carinho e a amizade de uma Raquell?
Para a mãe do preso, Raquell é um milagre simplesmente por ser uma pessoa com quem ela pode conversar sobre o Carlinhos… como se ele fosse gente.
Algumas peças feitas pelos meninos.
Algumas peças feitas pelos muitos Carlinhos

A alienação do trabalho e o comunismo da empresária

Raquell, a empresária da grife de luxo que vende para todo o mundo, se diz comunista. Eu quase acredito. Por um motivo: para Marx, a alienação do trabalho era um dos principais problemas das linhas de montagem industriais.
Quando o artesão fazia um sapato do começo ao fim, ele sabia, antes de tudo, que aquele sapato era seu, sua obra, sua autoria, produto de seu artesanato individual. Além disso, por saber também por quanto se vendia um sapato, ele tinha melhores condições de colocar um preço justo (digamos, de mercado) em seu trabalho.
Por outro lado, em uma linha de montagem industrial, teremos um funcionário cuja tarefa é somente colocar os cadarços, um atrás do outro, o dia inteiro. É um trabalho monótono, nada criativo, alguns diriam desesperador. Depois de passar o dia inteiro colocando cadarços, o operário não pode se sentir dono ou autor de nenhum sapato. De nada, na verdade. De fato, o trabalho é tão massificante que é difícil até sentir qualquer coisa. E como calcular o valor de seu trabalho? Se um sapato é vendido por $100, quanto disso foi resultado do trabalho dele? Como saber?
Na penitenciária, cada peça é feita a mão, individualmente, por uma pessoa só. Quando essa peça fica pronta, o autor coloca seu nome na etiqueta. Essa peça é e sempre será dele.
Quando uma cantora japonesa aparece na capa de seu CD com uma roupa Doisélles (aconteceu esse ano), ou quando uma personagem da novela aparece com uma peça da grife (acontece bastante), existe alguém, dentro de uma penitenciária de Minas, que diz, cheio de orgulho:
“Essa peça é minha. Sou o autor. Fui eu que fiz.”
Crystal Kay, na capa do álbum Superman, usando uma peça feita por Adenílson de Jesus, presidiário em Juiz de Fora e artesão em tricô.
Crystal Kay, na capa do álbum Superman, usando uma peça feita por Adenílson de Jesus, presidiário em Juiz de Fora e artesão em tricô

“Cadeia de Produção”, o filme

O média-metragem “Cadeia de Produção”, finalizado esse ano, é uma tentativa de documentar o Projeto Flor de Lótus. Naturalmente, distribuição é um problema, e o filme está passando somente em eventos especiais esporádicos.
Para quem mora no Rio, nessa quinta-feira, 23 de agosto, Raquell vai dar uma palestra sobre sustentabilidade no evento Rio Moda Discute Internacional, a ser realizado no Planetário da Gávea, às 19hs. Depois da fala, haverá uma exibição do filme. Eu recomendo.
Para quem não pode ir, já tem um trailer na internet, abaixo, e você pode ficar de olho no blog da Doisélles pra saber de novos eventos.

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