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sábado, 1 de setembro de 2012

Trotes: brincadeira sem graça


Chamadas falsas no País prejudicam serviços de urgência. Só em SP, das 150 mil ligações diárias para polícia e bombeiros, 25 mil são trotes. Estados criam multas para inibir atitude. Punição é rara.


Uma pessoa caída no meio da rua impressionou pedestres que passavam por uma rua de Canoas, no Rio Grande do Sul. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado e uma ambulância se deslocou para a região. No local, a descoberta: a pessoa caída era, na verdade, um boneco e o episódio não passava de uma brincadeira de mau gosto. Enquanto isso, um motociclista acidentado precisava ser socorrido do outro lado da cidade. A falsa ocorrência atrasou o atendimento ao rapaz que, por sorte, conseguiu chegar ao hospital com vida. Este é só um exemplo de como trotes e brincadeiras ao telefone comprometem o serviço de urgência e emergência diariamente em todo o País.

Na cidade de Cuiabá, no Mato Grosso, também neste ano, um chamado solicitou a presença da polícia para combater quatro homens "fortemente armados, com pistolas e granadas", que teriam invadido um edifício comercial. Foram mobilizados 50 policiais militares do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e até um helicóptero.

Após vistoria no local, a polícia constatou que a informação era falsa. O autor do trote, Paulo Rodrigues Pereira, de 48 anos, foi detido, mas liberado dias depois por um juiz, que alegou falta de flagrante. De acordo com o comandante-geral da Polícia Militar da cidade, Osmar Lino Farias, esse não foi o primeiro trote de Pereira. "Já havíamos identificado 29 ligações falsas feitas por ele", confirmou.

Para Ana Mercês Bock, professora de psicologia social da PUC-SP, a ação repetida de ligar e anunciar falsa ocorrência revela uma relação de agressividade do indivíduo. "Isso acontece quando a pessoa não desenvolve uma relação afetiva com a sociedade, quando não existe o sentimento de pertencimento", explica ela, que não descarta a possibilidade de haver algum tipo de transtorno ou perversão nessas pessoas.

Em Campinas (SP), uma mulher chegou a aplicar 1.068 trotes pelo 190. Foi detida no final de abril. Os dois celulares de Daminhana Gonçalves Arruda, de 22 anos, foram apreendidos, mas ela também foi solta.

Em todo o Estado, a quantidade de trotes é grande. Por dia, a Polícia Militar e os bombeiros contabilizam cerca de 150 mil ligações. Dessas, 25 mil são falsas (17%). O número de viaturas que deixam as centrais para atender a esses chamados chega a 250. Somente na capital, os serviços de emergência da polícia recebem todos os dias cerca de 43 mil solicitações, sendo que 8 mil são falsas. "Esses são os trotes identificados e filtrados pelos atendentes. Duram cerca de 30 segundos cada um e, durante esse período, ocupam a linha e impedem que outras ligações sejam recebidas", afirma o porta-voz do Comando de Policiamento da Capital, capitão Cleodato Moisés do Nascimento. "Por dia, cerca de 80 viaturas são deslocadas para locais de trotes. O prejuízo é grande, pois quem deixa de ter assistência é a população", completa o capitão, que afirma também que muitas brincadeiras são feitas por adultos alcoolizados, por ex-maridos que querem perturbar as ex-mulheres, sujeitos psicologicamente abalados ou que ligam apenas para puxar conversa com os atendentes. Ainda assim, as crianças são as campeãs. "Cerca de 70% das ligações identificadas como trote são feitas por crianças de até 12 anos", explica Moisés.


O capitão afirma ainda que o artigo 340 do Código Penal prevê multa ou pena de 1 a 6 meses de detenção para a "comunicação falsa de crime" – ou seja, o ato de avisar as autoridades sobre ocorrências que não são verdadeiras. Mas reconhece que a condenação por tal crime não é comum. "Num caso ou outro a gente penaliza", diz ele, sem contabilizar as condenações. Ainda segundo Moisés, conhecer o que cada serviço de emergência oferece facilita o atendimento (veja quadro acima).

Em São Paulo, porém, a punição com multa será mais pesada a partir de agora. A "Lei do Trote" determina que os donos dos telefones de onde partirem as chamadas indevidas, feitas para os serviços emergenciais do 190, 192 e 193, estarão sujeitos a pagar R$ 1.239,35. Segundo a autora da lei, a deputada estadual Rita Passos, a penalidade será por trote e não por pessoa. "Quem passar cinco trotes, vai pagar cinco vezes esse valor", esclarece. Paraná, Rio de Janeiro e Pernambuco também possuem leis que preveem punições para os autores de trotes.

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