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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

POLÍCIA MILITAR: DEUS, O DIABO, SANGUE E HIPOCRISIA.


A vida dura dos praças da Polícia Militar e a condição de escravos a que estão submetidos.

Imagine que você é um soldado escalado para lutar numa guerra Os combates são encarniçados e, como você bem sabe, as mortes são constantes. No entanto, dada a periculosidade, acredita que os salários deverão ser mais atrativos e sua família ficará plenamente amparada caso você morra.
Alegre e cheio de ideais de justiça e de combater o mal; você se une ao seu exército e parte para a luta. No entanto, percebe um detalhe muito estranho: Seus companheiros são céticos, apáticos e, muitos deles, descambam para comportamentos reprováveis e constantemente flertam com os inimigos. Indignado; você os questiona do alto de toda a sua integridade. Então você descobre que o tal “salário justo” é uma piada; seus companheiros combatem sob péssimas condições de saúde, treinamento e com equipamentos deficitários e obsoletos. Ao mesmo tempo; descobre o incrível fato de que, morrendo, sua família ficará desamparada e receberá uma mísera pensão ou um seguro a ser pago apenas se você morrer em um combate formal e “em serviço”. Mesmo todos sabendo que todo soldado caminha com um alvo preso às costas. É aí que você se pergunta: “Isso é justo?”
Essa “hipotética estorinha” é, na realidade, um retrato fiel da vida de um soldado da Polícia Militar. Constantemente acusados de truculência, corrupção, desvios de conduta das mais variadas formas e toda sorte de práticas ilegais; o praça da Polícia Militar é, antes de tudo, uma vítima da sociedade.
Duvida?
Experimente acordar bem cedo, para ir trabalhar, beijar sua esposa e filhos e prender um enorme alvo em suas costas com os dizeres: “Atire em mim” e sair por aí. É exatamente assim que um soldado PM vive nas grandes cidades brasileiras.
Execrados por grande parte da sociedade, que vê na polícia apenas o braço repressor, os soldados da PM devem mostrar-se vigilantes a cada segundo do dia. Trabalhando em escalas ultrapassadas e desgastantes de vinte quatro horas ininterruptas; o soldado PM é o equivalente urbano ao soldado de infantaria nas grandes guerras.
Há apenas uma pequena diferença: Enquanto os soldados de infantaria vão para o combate apoiados por capacetes balísticos, coletes a prova de balas de corpo inteiro, grande apoio estratégico e farto material logístico; o praça PM vai para as ruas de uma grande cidade como Rio de Janeiro, encarar armas com a mesma letalidade que o soldado de infantaria encara, munido apenas de uma camisa de poliéster e de um colete que, na maioria das vezes, ou é inadequado para a sua proteção ou consiste meramente de uma capa de tecido sem a proteção balística. Isso mesmo, “coletes-de-faz-de-conta”.
Mal preparados, mal alimentados, morando em ambientes vizinhos aos criminosos que devem combater (ou mesmo dentro dos mesmos complexos favelizados), os praças PM ainda veem seu trabalho taxado como inadequado por grande parte da população. Mas, o que poucos se perguntam é se realmente é possível exigir alto desempenho e quase a infalibilidade divina para alguém que arrisca a sua vida (e a de sua família), a cada segundo do dia, sem contar com o apoio do Estado e mesmo da população a quem protege? Com exigir que um praça PM não se torne o gordo e corrupto “guardinha da esquina” se ele é obrigado, pelas condições em que vive, a comer mal, a não fazer exercícios, a jamais treinar a pontaria ou mesmo poder morar dignamente.
Mas, como?
Simples, para encarar armas de guerra e o constante risco de ser capturado, torturado, queimado vivo ou ver seus familiares expulsos do lugar onde moram há anos; um praça PM recebe de recompensa da sociedade, em forma de soldo, a incrível quantia de R$ 236,62. Isso mesmo; duzentos e trinta e seis reais e sessenta e dois centavos. Não acredita? Veja aqui (soldos somados aos abonos) e aqui (tabela completa discriminado soldos e abonos).
A sociedade, representada pelo Estado, infringe a lei descaradamente e numa tentativa hipócrita de nega isso dá aos praças e demais policiais “abonos” que não são incorporados aos seus benefícios e que não se somam aos soldos. Isso eleva os salários para algo em torno de R$ 800,00 líquidos. Esse policial, se “tiver sorte”, será abatido em combate durante o horário de serviço. Pois, se for morto numa folga (ao socorrer uma vítima de assalto na rua ou salvar a vida de alguém que seria assassinado), não contará nem com a proteção do seguro de vida, ficando a sua família em total abandono. Sequer mencionarei aqui os soldados, cabos, sargentos e demais policiais que se tornam inválidos no combate ao crime. Processos demorados e burocratizados ao extremo levam muitos ao desespero e até mesmo ao suicídio.
Numa comparação rápida entre as polícias ostensivas de Nova York e a nossa (RJ); verificaremos que em 155 anos de existência da polícia ostensiva em Nova York (dados de 1850/2005), morreram 500 policiais em combate ou em folga. No Rio de Janeiro, APENAS EM 4 ANOS, já morreram muito mais do que isso.
É claro que aqui ninguém quer passar a mão pela cabeça dos que se corrompem. Contudo, é preciso entender que a nossa sociedade é hipócrita e cínica ao exigir um nível de excelência pelo qual decidiu não pagar. Ao negar salários dignos, instrução e treinamento de qualidade, apoio psicológico (antes durante e depois do serviço), apoio financeiro em momentos de necessidade e em sinistros normais na profissão; a sociedade carioca (e a brasileira) continuará tendo a polícia pela qual paga. Afinal de contas, por mais abnegado que seja o candidato a policial militar, ao ser apresentado a tão dura realidade é impossível manter-se permeável a todas as tentações que são próprias da vida em contato constante com a marginalidade. Assim, a Polícia Militar, será sempre criticada e difamada por aqueles que a tornaram assim:
Nós mesmos.


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