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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Passeio das drogas na Savassi



Sexta-feira, 23 de junho, 1h30 da madrugada: a reportagem identifica o primeiro vendedor de droga e começa a negociar a compra
Comprar drogas pesadas na Savassi, uma das regiões mais nobres de Belo Horizonte, pode ser uma tarefa tão fácil quanto pedir uma garrafa de cerveja. Na madrugada de 23 de junho, a revista Viver Brasil comprovou a existência de venda ilegal no movimentado cruzamento entre as ruas Fernandes Tourinho e Sergipe. Por 65 reais, valor inflacionado comparado aos morros, a reportagem adquiriu cinco pedras de crack de dois traficantes, de forma rápida e espontânea. A presença constante de viaturas da Polícia Militar pelo local não inibiu as transações.
 
O ponto de partida foi o bar Rei do Pastel. Localizado na esquina, o estabelecimento permanece aberto 24 horas e, sobretudo nos fins de semana, concentra grande número de jovens espalhados em mesas na calçada. Foi lá, no passeio, que a reportagem identificou o primeiro vendedor, por volta de 1h30 da madrugada. Com os cabelos desgrenhados, ele oferecia cápsulas de suplemento alimentar. Mas não se surpreendeu ao ser indagado se tinha alguma coisa diferente. Logo, passou os preços: 15 reais a pedra de crack e 30 reais o grama de cocaína.
 
A negociação, feita nas mesas em frente ao bar, durou entre dois a três minutos. Pouco depois, o vendedor volta ao lado de uma mulher de bermuda e cabelos curtos, que anuncia: “Vai rolar, vai rolar”. Em seguida, o homem faz um sinal para o repórter em direção a um canto com menos movimento. A menos de 10 metros da mesa, ele repassa três pedras de crack, embrulhadas em um pequeno saco plástico. Ele ainda indica ao repórter um local para fumar, o espaço entre a calçada e um prédio comercial, na rua Fernandes Tourinho, do outro lado da rua. Admite também que ele próprio fuma crack e apresenta outro usuário. “Pode fumar aqui, é bem tranquilo”, garante.
 
Enquanto isso, percebendo a movimentação, outro traficante se aproxima. Ele pede: “Compra (sic) as outras pedras na minha mão”. O preço é, digamos, promocional: duas pedras por 20 reais. A negociação e a entrega são feitas ali mesmo, momento registrado pelo iPhone do fotógrafo. A droga vem embrulhada em guardanapo, indicando a possibilidade da existência de fornecedores distintos.
 
Na mesma madrugada, a reportagem ainda contatou dois usuários. O primeiro, um homem por volta de 40 anos e evidentemente alterado pelo efeito da droga, reclamava de ter entregado seu celular na mão de um vendedor em troca de crack, mas de não ter recebido a droga. Mesmo assim, ele portava pedras; chegou a ostentar algumas delas na mesa do bar. O segundo usuário, um homem com aparentes 50 anos, estava em busca de cocaína. Ele negociou com um dos traficantes o grama de pó por 22 reais, mas acabou não fechando o negócio.
 
Ao ser comunicado do flagrante presenciado pela Viver Brasil, o proprietário do Rei do Pastel disse que o comércio ilegal no passeio não é de sua responsabilidade e não quis dar mais declarações. Já o presidente da Associação de Moradores da Savassi, Alessandro Runcini, afirma que esse é um fato novo para ele. “Embora já soubesse da existência de usuários, não fazia ideia de que havia venda de drogas por ali. É uma prática inadmissível e muito grave. O efeito destrutivo do crack, além do mal que faz aos usuários, põe em risco a segurança dos moradores”, afirma.
 
A Savassi, pouco tempo após a revitalização, já sente os efeitos da droga. Entre abril e maio, 10 estabelecimentos comerciais foram arrombados na rua Fernandes Tourinho. Por meio da Operação Nix, a Polícia Militar descobriu e invadiu uma casa e um prédio abandonados na rua Rio Grande do Norte. Ambos serviam de abrigo a 21 menores infratores e viciados em crack.  
 
“De três anos para cá, é cada vez maior o número de moradores de rua sob efeito visível de entorpecentes. Dormem pela manhã e perambulam pela rua à tarde e à noite. Os clientes ficam assustados, pois eles pedem dinheiro. Aparentemente, são inofensivos, mas temo que possam se tornar agressivos em um momento de abstinência”, diz o empresário M., 53, morador da rua Antônio de Albuquerque (acima da Fernandes Tourinho), dono de comércio na região. Trabalhando há quatro anos em um prédio da rua Sergipe, o zelador B., 47, já presenciou tentativa de assalto a uma moradora, com pedra. Ele próprio já foi ameaçado. “À noite, aqui é ponto de droga mesmo. Os moradores não têm liberdade para sair a pé. Muita gente pensa que são mendigos, mas são viciados mesmo.”
 
“Várias vezes já vimos pessoas com cachimbos de crack na rua. E eles sempre ficam no mesmo ponto”, confirma o empresário D., 21, dono de um estabelecimento da rua Fernandes Tourinho, em referência ao passeio em frente ao prédio comercial indicado pelo vendedor à reportagem. “Não me surpreende a venda de drogas na Savassi, devido ao aumento de usuários na rua. Se eles comprassem no centro ou na periferia, por que viriam usar aqui?”, raciocina a professora R., 60 moradora da rua Sergipe.
 
Embora os moradores e comerciantes relatem o clima de insegurança, nenhum deles denunciou o caso à Polícia Militar. “Não temos nenhuma informação de tráfico na região, nem registro de denúncia”, garante o major Carlos Alves, comandante da 4ª Companhia Especial do 1º Batalhão da Polícia Militar. Ele ressalta que o trabalho de segurança pública e o combate às drogas e à criminalidade devem ser feitos em conjunto com a sociedade. “Mesmo com policiamento preventivo de 20h às 6h diariamente, não é possível colocar um policial a cada esquina, nem abordar todas as pessoas aleatoriamente, especialmente em um espaço frequentado por pessoas de todos os níveis como a Savassi”, rebate o major, que prometeu averiguar a denúncia feita pela Viver.
Durante o tempo em que a reportagem esteve no local, alguns carros de polícia passaram pela Fernandes Tourinho, o que não intimidou os traficantes
Durante o tempo em que a reportagem esteve no local, alguns carros de polícia passaram pela Fernandes Tourinho, o que não intimidou os traficantes
Linha de combate
 
Ninguém duvida que o crack seja uma das drogas mais potentes da atualidade. Mistura da pasta de cocaína com bicarbonato de sódio ou amônia e água destilada, a pedra pode ser fumada em cachimbos normalmente improvisados, como latas de alumínio. “Em menos de 10 segundos, a fumaça atinge o sistema nervoso central e estimula os neurotransmissores ligados ao prazer. A sensação de euforia é tão grande que a pessoa tem vontade de usar cada vez mais, sem controle, o que chamamos de fissura. Com poucas vezes de uso, a pessoa fica realmente dependente”, explica a psiquiatra Tatiana Mourão, da Faculdade de Medicina da UFMG. Os riscos vão além da dependência. O aumento das doses pode provocar parada cardíaca, paranoia, lesões nas vias respiratórias e cerebrais, com sintomas semelhantes à demência. “O tempo de vida médio do usuário não recuperado é de cinco anos”, informa Tatiana.
 
Mesmo letal, o consumo de crack cresce assustadoramente em Belo Horizonte. Entre 2005 e 2011, o total de atendimentos no Centro Mineiro de Toxicomania, no Santa Efigênia, saltou de 309 casos para 526. Mas a diretora da unidade, Raquel Martins Pinheiro, autora do levantamento, relaciona a expansão de 70,2% à insatisfação dos próprios usuários e não necessariamente à disseminação da droga. “As pessoas que nos procuram costumam vir porque não aguentam mais o vício. Nosso trabalho não é de internação compulsória”, diz.
 
O avanço aponta falhas graves na política antidrogas adotada no Brasil. “A repressão fica muito centrada no consumo e no comércio, desprezando a produção e a rede de distribuição internacional, etapas anteriores no processo”, analisa o filósofo Robson Sávio Reis, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da PUC Minas. Segundo ele, a primeira providência quando há uma denúncia, é ação imediata da polícia. Porém, a tática é paliativa. “Ao prender o usuário e até mesmo o pequeno comerciante, a polícia apenas mascara o problema. Higieniza uma área por um tempo, mas, como não tem condições de vigiar todo o espaço público ao mesmo tempo, o problema volta quando o dependente químico é solto. O que o Brasil precisa é de políticas de médio e longo prazos, estratégias que mixem ações públicas. Para os usuários de rua, são necessárias equipes especializadas em saúde pública e assistência social, que provenham condições de superação do vício e reinserção à atividade produtiva”, afirma Reis.
 
Na linha de frente, o combate ao crack passa pela reforma e reestruturação da polícia, da Justiça criminal e do sistema prisional. “A ação policial deve ir além das medidas repressivas. Para começar, deve melhorar as ações de investigação, mapeando o modus operandi da distribuição de drogas, de armas e de grandes traficantes. Também deve investir em inteligência criminal e em controle da corrupção. Já o sistema judiciário precisa ser mais rápido e menos seletivo em atender apenas as demandas das classes altas. Por fim, a rede criminal deve ser utilizada não para o usuário, mas para o traficante armado e os líderes das grandes redes”, diz Reis.
 
Só agora as autoridades brasileiras parecem se dar conta deste caminho. Em 29 de junho, Minas assinou o acordo para integrar o programa Crack, é Possível Vencer. Criado pelo governo federal, o projeto visa ações para ampliar os serviços de saúde pública e atenção aos usuários de drogas em âmbito municipal, estadual e federal. “Belo Horizonte vai investir em três Centros de Atenção Psicossocial (Caps), seis Consultórios nas Ruas e 12 leitos hospitalares especializados em atendimento a dependentes químicos, além de duas novas Unidades de Acolhimento”, lista a presidente do Conselho Municipal de Políticas sobre Drogas, Márcia Alves. Minas, por sua vez, deverá receber 644 novos leitos, 86 Caps, 35 Consultórios nas Ruas e 93 Unidades de Acolhimento. As ações de assistência social ainda devem contar com a ampliação da capacidade de atendimento nos Centros de Referência Especializada em Assistência Social (Creas) e nos Centros de Referência Especializados para Pessoas em Situação de Rua (Centros POP). É o começo de uma longa batalha na luta contra o crack e outras drogas – e a possibilidade de recomeço para quem já caiu em suas garras.  

Saiba mais

Belo Horizonte é a sexta capital do país e a primeira do Sudeste em número de estudantes que já usaram crack, acima da média nacional
 
Brasil - 2,6%
 
  • 1º São Luís (MA) - 13,2%
  • 2º Cuiabá (MT) - 12,2%
  • 3º Rio Branco (AC) - 10,3%
  • 4º Florianópolis (SC) - 7,8%
  • 5º Porto Alegre (RS) - 5,8%
  • 6º BELO HORIZONTE - 5,2%
  • 7º Teresina (PI) - 4,6%
  • 8º Natal (RN) - 4,1%
  • 9º Fortaleza (CE) - 2,9%
  • 10º Salvador (BA) - 2,7%
Fonte: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Os números se referem aos alunos dos ensinos médio e fundamental das redes pública e privada acima de 19 anos 
Perfil do usuário 
 
O grande contingente se concentra na periferia...
Homem: 83,4%
Solteiro: 71,2%
Entre 25 a 40 anos: 64%
Desempregado: 52%
Ensino fundamental incompleto: 44,6%
 
... mas a classe média também se rendeu à droga
22,4% têm trabalho fixo
17,6% têm ensino médio completo
3,9% têm ensino superior completo ou em andamento
2,4% são estudantes
Fontes: Centro Mineiro de Toxicomania - Dados referentes a 2011