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sábado, 24 de maio de 2014

Como é a rotina do Batalhão de Operações Aéreas do Corpo de Bombeiros, resposável por chegar de helicóptero em casos graves

Nidin Sanches/Odin

A tropa de elite dos bombeiros: o enfermeiro Gleison Silva, o mecânico Ivair dos Santos, o piloto Fábio Dias, o tripulante operacional William de Jesus e o médico Martin Bucek (da esq. para a dir.)

s raios de sol surgem discretamente no céu quando os primeiros homens do Batalhão de Operações Aéreas (BOA) chegam para outro plantão. São 6h30 de uma sexta-feira. No hangar 7, localizado no Aeroporto da Pampulha, começa a rotina dessa tropa de elite do Corpo de Bombeiros, a instituição mais respeitada pelos brasileiros segundo o Ibope. O cheiro de café fresco sai da pequena copa. Durante o expediente, que vai até as 18 horas, serão consumidas pelo menos cinco garrafas da bebida, além de algumas xícaras do chá de erva-cidreira que a auxiliar de serviços gerais Amaziles Margarida de Andrade faz com as folhas de um pezinho plantado bem na frente do batalhão. As visitas à copinha são breves doses de relaxamento em uma rotina de stress em grau máximo. Os homens do BOA estão sempre de prontidão. Atendem a quase todo tipo de emergência, não apenas na capital, mas em qualquer um dos 852 municípios do interior. Eles são o último recurso de salvamento, só entram em cena quando os bombeiros em terra se encontram em apuros. Com uma frota de dois helicópteros Esquilo - batizados de Arcanjo 01 e 02 - e um avião Cessna, a brigada, criada em 2006, cruza os céus para resgatar vítimas de acidente, salvar moradores de áreas atingidas por incêndio ou enchente e localizar pessoas perdidas em mata fechada. "Só pegamos casos em que a vida está em risco iminente", explica o capitão Anderson Passos, de 40 anos, um dos sete pilotos do 11º Batalhão de Minas Gerais. E alguns deles são traumáticos. O capitão, por exemplo, não se esquece de um atendimento há dois anos, o socorro às vítimas de uma batida entre um ônibus e uma carreta, na BR-040, perto de Curvelo, na Região Central do estado. Quinze pessoas morreram e outras vinte ficaram presas às ferragens. "A gente não sabia nem por onde começar", lembra ele.

O BOA recebe, em média, cinco chamadas por dia. Dessas, pelo menos duas realmente dependem do apoio da unidade. Na sala de controle, onde ficam um rádio transmissor, três linhas telefônicas e dois computadores, um atendente acompanha as ocorrências da Central dos Bombeiros e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Depois de verificar a real necessidade de uso da aeronave, ele avalia as condições meteorológicas e o tempo estimado de deslocamento antes de acionar a equipe. Uma vez tomada a decisão de voar, são necessários apenas três minutos para que o helicóptero decole. O piloto é sempre o último a ser informado sobre os detalhes do caso, para que não se envolva emocionalmente. "Imagine se sabemos que há uma criança em risco. A vontade de ir é imediata, mas é preciso ter certeza de que a viagem é viável", explica o major Farley Rocha Soares, de 39 anos. Peritos em manobras arriscadas - com um número de horas de voo cinco vezes maior do que o exigido de um comandante comercial -, os pilotos dos bombeiros são treinados para pousar em lugares como rochedos irregulares, entre fios de alta-tensão, rodovias e pequenos descampados. São, quase diariamente, protagonistas de cenas dignas de filmes de ação.



"Só pegamos os casos em que a vida está em risco iminente."Capitão Passos, piloto do Corpo de Bombeiros 



No quartel do Batalhão de Operações Aéreas, não existe aquele cano, muito comum nos longas-metragens, pelo qual os destemidos bombeiros escorregam cada vez que há um sinal de uma emergência. Mas o alarme estridente indicando perigo é, sim, o mesmo da ficção. "Só não somos tão bonitos quanto os atores hollywoodianos", brinca o major Soares. A sirene é disparada conforme o tipo de ocorrência. Quatro toques indicam missões já programadas, como transporte de órgãos ou mesmo de autoridades. Três, convocação para missões urgentes - e os homens entram na aeronave sabendo que têm vidas em suas mãos. Em 19 de abril do ano passado, essas vidas eram dos próprios colegas. A equipe foi acionada para atender a um grave acidente na BR-381, perto de Betim, envolvendo três carretas e uma van. Um dos veículos era o caminhão de combustível do Corpo de Bombeiros, que seguia para Extrema, no sul do estado, onde serviria de apoio para uma ação de buscas a uma pessoa desaparecida. Entre os feridos estava o cabo Antonio Francisco Ferreira da Silva, de 46 anos, um dos homens do BOA. Preso às ferragens, ele só ficou mais calmo quando viu seus companheiros de unidade chegando. "Foi um alívio saber que seria atendido pelos melhores", diz Silva, que sofreu uma grave lesão no pé esquerdo e perdeu um pedaço do calcanhar. Ele ainda se recupera do acidente e, depois de 26 anos, pela primeira vez está fora da rotina do quartel. Sente saudade. "Tenho muito orgulho da farda", diz. "Se o pior tivesse acontecido comigo, minha família saberia que eu havia morrido tentando salvar alguém. Isso vale mais do que qualquer coisa."


Gustavo Andrade/Odin


De batom no comando
A capitã Karla Lessa é a única mulher a pilotar no BOA
Foi em 2001, durante o curso de Formação de Oficiais dos Bombeiros, que Karla Lessa entrou em um helicóptero pela primeira vez. Até então, nunca havia voado nem de avião. Desde 2012, a capitã, de 31 anos, é a única mulher a pilotar as aeronaves da corporação. Um ano e meio atrás, passou por uma de suas experiências mais dramáticas. Ao atender a um acidente automobilístico, socorreu uma criança de 4 anos, cuja mãe havia sido ejetada do veículo. A menina estava presa à cadeirinha. "Ela só me avisava: ‘A mamãe caiu’." No momento, Karla foi designada para trabalharna Assessoria Extraordinária para a Copa do Mundo, que vai acompanhar a escolta de todos os jogos do Mineirão. 



Na manhã da ocorrência com o cabo Francisco, o médico de plantão era o cirurgião cardiovascular Martin Ferreira Bucek, de 39 anos, que atuava em parceria com o enfermeiro Gleison Sérgio Ferreira da Silva, de 31. Eles fazem parte dos dezesseis profissionais do Samu, que, em revezamento, dão plantão no BOA desde 2012. "O tempo que ganhamos voando pode fazer a diferença na vida de alguém", afirma o enfermeiro Silva. Para se ter uma ideia da velocidade de deslocamento, os socorristas aéreos levam, por exemplo, nove minutos até a BR-381, em Caeté. Se fossem por terra, a viagem demoraria pelo menos quarenta minutos, em dias de "trânsito normal". Em dois anos de trabalho ao lado dos bombeiros, o cirurgião Bucek aprendeu a escalar, fazer rapel e ter resistência para longas caminhadas. Já precisou percorrer mais de 3 quilômetros mata adentro com 30 quilos de equipamento nas costas. "Todo o meu esforço é recompensado quando vejo surgir esperança onde, poucos minutos antes, só havia dor", diz, emocionado. "Quando recebemos o sorriso de uma vítima, é como ganhar um abono extra que não estava no contrato."


Socorro a caminho
Quem são os seis profissionais que voam no helicóptero dos bombeiros

piloto é a autoridade máxima dentro da aeronave
Ficam a cargo do copiloto o plano de voo e a comunicação com os órgãos de controle
Dois tripulantes operacionais manejam equipamentos como cesto, maca e guincho
médico faz o primeiro atendimento antes de a vítima embarcar no helicóptero
Além de auxiliar o médico, o enfermeiro confere e organiza medicamentos e aparelhos 


Mais da metade das ocorrências atendidas pelos dois Arcanjos foram acidentes na BR-381, que liga Minas Gerais ao Espírito Santo. Inaugurada mais de cinquenta anos atrás, a estrada tem um traçado sinuoso e perigoso. Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, só em 2013 foram 9 989 acidentes, com 289 mortos. Não à toa, a via é conhecida como a Rodovia da Morte. O trecho mais crítico fica entre a capital e o município de João Monlevade. Nesses 100 quilômetros de extensão, onde há mais de 200 curvas, 83 pessoas perderam a vida no ano passado. "Evito passar por lá quando estou com a família. E, se sou obrigado, fico sempre com um terço nas mãos", conta o subtenente William Lucas de Jesus, de 48 anos, tripulante operacional e testemunha de desastres de todos os tipos naquele local. Para os integrantes do BOA, porém, não há tempo para lamentar ocorrências passadas. "Finalizado um atendimento, o Arcanjo tem de estar pronto para o próximo voo, que pode ocorrer a qualquer momento", resume o capitão Kleber Silveira de Castro, de 34 anos. Entre janeiro e dezembro de 2013, o Batalhão de Operações Aéreas atendeu a 537 ocorrências - três a cada dois dias - e transportou 521 pessoas. Só no último feriado, de quinta (17) a segunda (21), os militares fizeram oito atendimentos, sendo um acidente próximo ao Viaduto da Mutuca, na BR-040, e outro em Oliveira, a 163 quilômetros da capital, onde um motoqueiro colidiu com uma caminhonete. Ambos com vítimas fatais.


"Quando recebemos o sorriso de uma vítima, é como ganhar um abono extra que não estava no contrato."
Martin Bucek, médico-cirurgião plantonista do BOA



Com 1 500 horas de voo, o capitão Fábio Alves Dias, de 36 anos, aprendeu a conter a emoção diante das cenas de sofrimento que encontra pelo caminho. "Se chamam os bombeiros é porque precisam de alguém para agir com a razão", afirma Dias, que nasceu em Vitória e se mudou para Belo Horizonte aos 13 anos, disposto a conquistar uma vaga de jogador de futebol no juvenil do Atlético. Aos 20, porém, ele descobriu que sua vocação era outra. "O espírito de um bombeiro é o mesmo em qualquer lugar no mundo, o de ajudar", diz ele. O menino que sonhava com o grito de um estádio lotado hoje é aplaudido por onde passa. Tornou-se um herói para torcedores de todos os clubes.


Uma UTI nos ares
Novo modelo entra em operação na Copa
O EC 145, um helicóptero com capacidade para oito passageiros, dois deles deitados em maca, é uma espécie de UTI nos céus. Extremamente útil em casos de traumas, AVC e infarto, além de socorro a gestantes de alto risco, a aeronave será capaz de reduzir mortes e sequelas nas situações em que elas podem ser evitadas. O helicóptero, recém-adquirido pela Secretaria Estadual de Saúde, por mais de 30 milhões de reais, entrará em operação durante a Copa do Mundo, em junho. "Será um salto no atendimento aeromédico", comemora o tenen­te-coronel Cláudio Robertode Souza, comandante do Batalhão de Operações Aéreas. O estado pretende investir mais 160 milhões de reais para comprar outros cinco equipamentos desse tipo até 2017. Os bombeiros também aguardam a chegada de dois aviões Caravan.
fonte VEJA BH