Destaques

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Máquina ajudará policiais a encerrar perseguições de forma mais segura

20140227085723107620e
20140227090349287121aNa luta contra o crime, Batman usa facilidades tecnológicas que parecem possíveis apenas na ficção. Uma delas, mostrada no filme O cavaleiro das trevas, é uma arma que não dispara projéteis ou fogo, mas sim pulsos eletromagnéticos capazes de danificar equipamentos elétricos ao redor. Pois o artefato deve deixar de ser exclusividade do Homem Morcego e pode estar disponível para policiais europeus em 2016.
Um consórcio de pesquisadores trabalha no desenvolvimento de um equipamento semelhante ao do super-herói. Com financiamento de 4,3 milhões de euros, o Savelec (sigla para controle seguro de veículos não cooperativos por meio de meios eletromagnéticos) tem a missão de parar carros em fuga de maneira mais segura. A ideia é que, com os pulsos eletromagnéticos, os policiais sejam capazes de danificar os circuitos eletrônicos dos veículos e não precisem manter perseguições perigosas nem recorrer a armas de fogo ou choques propositais.
O projeto é desenvolvido desde 2012 – coincidentemente, o mesmo ano em que o filme de Christopher Nolan foi lançado – por empresas, universidades e institutos de pesquisa de França, Alemanha, Grécia, Espanha e Suécia, com coordenação do Instituto Tecnológico de Informação, Aplicações e Comunicações Avançadas de Valência.
Apesar de parecer surpreendente, a tecnologia de emissão de ondas eletromagnéticas já é estudada por forças militares. Seu uso é polêmico, por poder danificar de maneira indistinta diversos tipos de infraestrutura, incluindo, por exemplo, equipamentos hospitalares e marca-passos. Por isso, segundo o Direito Internacional dos Conflitos Armados (Dica), esse recurso seria uma violação aos princípios de distinção entre alvos civis e militares.

Desafios

Diante de tantos riscos, os desafios do consórcio europeu que busca criar um equipamento do tipo para circular nas ruas de cidades são vários. Além de se certificar de que a arma funcione, os cientistas precisam garantir que ela não represente risco aos policiais que a utilizarem nem às pessoas dentro do carro atingido, além de assegurar que os efeitos não sejam sentidos em outros equipamentos ao redor. As consequências à exposição humana são avaliadas no contexto da legislação europeia.
Uma das preocupações, a cargo da fabricante francesa de mísseis MBDA, tem sido simular, com voluntários, como motoristas reagem quando seus carros param de funcionar em alta velocidade. No entanto, os perigos vão além da inércia: as ondas eletromagnéticas, assim como as luzes ultravioleta, podem causar queimaduras na pele.
“Imagine o Sol irradiando por uma lupa sobre um papel. Ele incendeia. Isso acontece porque toda a luz está concentrada em um ponto apenas, em vez de estar distribuída. Isso também pode ocorrer nessa tecnologia, se a intensidade não estiver bem calibrada”, explica João Paulo Chaib, professor do Departamento de Física da Universidade Católica de Brasília (UCB)
Carlos Daniel Ofugi Rodrigues, professor de Física do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar, da Universidade do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, observa que, além da intensidade, a velocidade de vibração vai definir a maneira de a onda interagir com os materiais e estruturas que atingir. “O forno de micro-ondas doméstico interage com a água. O nosso corpo é formado por 70% de água, o que significa que uma pessoa exposta a uma energia dessas seria cozida”, lembra Rodrigues. “É preciso ainda observar os efeitos de longo prazo nas pessoas. Isso é perigoso, porque ninguém vai esperar 50 anos para saber o que essas ondas podem fazer nos organismos. Quais são os efeitos cumulativos ninguém sabe”, acrescenta.
Obviamente, a intenção dos pesquisadores europeus não é cozinhar pessoas nem “fritar” o sistema eletrônico dos carros. Segundo o site do Savelec, o objetivo é apenas desorientar a eletrônica do carro para que ele pare, sem quebrá-lo. Chaib ressalta que o os impactos na eletrônica vão depender da sensibilidade dos materiais à onda. “Existe uma relação entre sensibilidade e intensidade da arma, porque cada material responderá de forma diferente aos feixes. Se a força das ondas for grande a ponto de queimar a matéria, então haverá perigo. Outra coisa que pode acontecer é um material que está dentro do carro, como um telefone, ser mais sensível. Então, ele sofrerá danos, mas o carro não.”
Outra preocupação ligada ao projeto são as reações do controlador humano, no caso o policial, em diferentes cenários e condições de condução. Estudos jurídicos sobre o uso da tecnologia por parte das forças de segurança europeias ainda serão realizados e um marco regulatório será proposto. Especial atenção será dada às medidas necessárias para assegurar um uso seguro e limitado apenas aos fins para os quais a tecnologia está sendo desenvolvida.

Só novos

Além disso, engenheiros da Agência Aeroespacial Alemã DLR, que integra o consórcio, têm se empenhado em estudar a fundo as unidades de controle de motores (ECUs), que funcionam como a CPU dos carros, para identificar vulnerabilidades. As ondas do Savelec devem atingir a fiação do veículo, que funcionará como uma espécie de antena. Os pulsos desativarão temporariamente as ECUs, como se as reiniciasse constantemente, até que elas simplesmente parem de funcionar. São basicamente duas as forças lançadas sobre o veículo, os pulsos eletromagnéticos e as micro-ondas de alta potência (veja quadro ao lado).
Os pesquisadores ainda não conhecem os efeitos dos pulsos no controle da direção e dos freios, mas já sabem que carros antigos são imunes às ondas. “Se o carro for antigo, daqueles de carburador, sem injeção eletrônica, não será afetado pelas ondas. Em relação aos mais modernos, pelo menos o que se sabe é que não existe blindagem capaz de conter esses pulsos. A única saída para os bandidos seria, por exemplo, desenvolver uma tecnologia igual à dos policiais e imobilizar os carros deles também”, imagina Rodrigues.
Para Chaib, embora a tecnologia seja teoricamente viável, ela poderia ser repensada e dar lugar a um dispostivo mais simples. Os chips localizadores de veículos, por exemplo, podem rastrear e parar um carro roubado. “Eles poderiam fornecer informações em código para a polícia, que poderia simplesmente ativar o chip para cortar a energia do carro, o que o faria frear. Esses alarmes já existem, e muitos travam os carros exatamente na hora em que ele está sendo roubado”, sugere o professor.
Descobertas
Em 1873, o escocês James Maxwell previu com equações a existência e a propagação de ondas eletromagnéticas. As ondas de rádio foram produzidas pela primeira vez por Heinrich Hertz, em 1888, e foram o ponto de partida para um novo tipo de comunicação. Até então, a luz era a única representante do espectro eletromagnético na ciência. O primeiro indício de outras formas apareceu em 1800, quando um cientista chamado William Herschel encontrou a luz infravermelha. Em 1845, Michael Faraday observou que a luz polarizada poderia percorrer um material transparente relacionado a um campo magnético. A última porção do espectro eletromagnético foi desvendada com a descoberta dos raios gama por Paul Villard, em 1900.