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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Comandante da UPP Nova Brasília morre após ser baleado no Alemão

Rio - A resistência de traficantes à pacificação no Complexo do Alemão levou à baixa significativa nas forças de segurança do estado. Em mais um dia de confrontos, bandidos mataram o comandante da UPP Nova Brasília, o capitão Uanderson Manoel da Silva, de 34 anos, com um tiro no peito. Ele era casado com uma oficial do Comando de Polícia Pacificadora e tinha uma filha de 7 anos. O policiamento foi reforçado na região, mas ruas ficaram completamente vazias até à noite. 
Coronel foi baleado no peito na UPP Nova Brasília
Foto:  Divulgação
“Ele era uma pessoa maravilhosa. Eu o chamava de ‘maluco’, porque não tinha medo de bandido. Perdem a polícia e a família”, comentou Fátima Gomes dos Santos, sogra do oficial. 
Uanderson foi socorrido em estado grave na UPA do Alemão e transferido para o Hospital Getúlio Vargas, onde foi submetido a uma cirurgia no tórax. O tiro passou entre o braço e o peito, área que não é protegida pelo colete à prova de balas. 
O capitão estava há 11 anos na Polícia Militar. Ele trabalhou no 14º BPM (Bangu), 15º BPM (Caxias) e 41º BPM (Irajá), e foi subcomandante da mesma unidade, ocupava o cargo de comandante há apenas três semanas.
Esse é o segundo caso de morte de militar em comando em UPPs. Em março, o subcomandante da UPP Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, Leidson Acácio Alves Silva, 27, morreu ao ser baleado na testa durante patrulhamento na Rua 10, no Parque Proletário.
Num confronto no início da tarde, na localidade conhecida como Campo do Seu Zé, equipes da UPP Fazendinha trocaram tiros com um grupo suspeito que conseguiu fugir e deixou para trás 58 papelotes de cocaína, 10 pedras de crack e duas motos. 
Momentos depois, Raian Dias da Rocha, 20 anos, foi socorrido na Unidade de Pronto Atendimento do Alemão ferido a tiros. Raian foi transferido, sob custódia, para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro. O caso foi registrado na 45ª DP (Alemão). O tiroteio, às 17h30, no qual o capitão foi baleado durou 30 minutos, no Largo do Vivi. 
Chocados com o crime, vários policiais militares fardados e à paisana foram para a porta do Hospital Getúlio Vargas em busca de informações sobre o comandante. No entanto, eles não comentaram o caso.
O cabo Mesquita estava com o comandante: 'O ataque foi pelo beco do mercado. Entramos no beco, eu, outro companheiro e o capitão, que levou uma rajada. Comecei a trocar tiro com os marginais e o capitão gritou que tinha sido atingido no peito. Troquei tiros até acabar a minha munição. Peguei o capitão pelo ombro e na saída ainda tropecei em uma granada que por sorte não explodiu. Levamos para o hospital, mas infelizmente ele não suportou'.
DESAFIOS ÀS UPPs
Em julho, confrontos nas áreas dos complexos do Alemão e da Penha foram relatados todos os dias por moradores. Nos últimos meses, a onda de violência em áreas pacificadas atingiu também a Mangueira e a Rocinha. 
Casado com uma oficial da PM, Uanderson deixa uma filha de 7 anos
Foto:  Reprodução
Desde a execução do ex-traficante Francisco Paulo Testas Monteiro, o Tuchinha, no dia 2, facções criminosas rivais disputam território na Mangueira e no Tuiuti. Nas redes sociais, multiplicam-se os relatos de disparos e de que o medo voltou a pairar na região. A polícia tem informações sobre disputa de território na Mangueira por duas facções.
Outros ataques: Dia a dia de confrontos na favela
Também em março deste ano, o comandante da UPP Manguinhos, capitão Gabriel Toledo, foi ferido a tiros na perna direita durante uma manifestação contra a desocupação de um prédio ao lado da Distribuidora de Suprimentos Disup, para obras do Programa de Aceleração do Crescimento (<MC0>PAC), na Avenida Leopoldo Bulhões. Em razão do ferimento, Toledo precisou passar por cirurgia vascular, pois o tiro atingiu uma artéria. 
Durante o protesto, um outro policial foi atingido por uma pedrada na cabeça, e carros da polícia também foram atacados. A via foi interditada pelos moradores com a queima de pneus e pedaços de madeira.
Depois disso, criminosos se infiltraram no protesto e iniciaram o tiroteio que atingiu o comandante. Na ocasião, os criminosos atearam fogo em um contêiner de uma base avançada da UPP Manguinhos, na comunidade da Coreia e em viaturas. 
Cerca de um mês antes, em fevereiro, o coordenador das UPPs, coronel Frederico Caldas, e a então comandante da UPP Rocinha, major Pricilla Azevedo, ficaram feridos levemente durante uma operação na comunidade da Zona Sul. 
Na localidade da Macega, Caldas tentou se abrigar dos tiros que estavam sendo trocados por traficantes do local e como o lugar era escorregadio acabou caindo. Na queda teve ferimentos leves e foi atingido no olho. Na ocasião, a major foi atingida de raspão por estilhaços. 
Pezão afirma que pacificação não vai recuar por causa dos ataques
Em nota o governador Luiz Fernando Pezão lamentou a morte do policial. “Tentativas como esta não nos intimidam”, disse. Segundo ele, o PM morreu trabalhando em defesa da paz dos moradores do Alemão. “Não vamos permitir que os bandidos tirem covardemente a vida dos nossos policiais”, acrescentou. Ele lembrou que hoje será formalizada a permanência do Exército no Complexo da Maré. “ As unidades têm sofrido ataques de marginais que tentam a todo custo desmoralizar o programa”, comentou.
Especialistas afirmaram que a ocupação no Alemão precisa ser repensada. Para o coronel da PM e ex-coordenador-geral de Polícia Pacificadora, Robson Rodrigues, não há mais condições de policiais trabalharem no Complexo do Alemão.
“Trabalho de proximidade, para ser de excelência, tem que ser feito com tranquilidade, e isso não vai acontecer neste momento porque moradores e policiais estão assustados.”
O ex-comandante, estudioso de Segurança Pública, criticou os caminhos tomados pela pacificação e disse que é preciso fazer uma reformulação.
“O problema de segurança pública é de polícia, mas não só de polícia. Este sistema tem que funcionar com uma maior sinergia entre as polícias Civil e Militar. A gente tem que estranhar o fato de essas armas estarem lá”, comentou. 
Para a cientista social Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos sobre Segurança e Cidadania, a pacificação do Alemão nunca funcionou efetivamente, ao contrário do que ocorreu em outros locais. 
“No Alemão fracassou desde o começo. Nunca foi estabelecido o canal de diálogo com os moradores que o Exército tinha. A polícia não foi capaz, ali, de mudar o foco. Os traficantes falaram que ali era o quartel-general do tráfico e a polícia, o quartel-general da PM. E instaurou-se uma guerra nos moldes da que vemos nos últimos 30 anos e nunca deu certo”, criticou Silvia Ramos. O cientista político João Trajano Sento-Sé, coordenador do Laboratório de Análise da Violência, da Uerj, criticou a exploração política da estratégia de pacificação.

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