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terça-feira, 18 de novembro de 2014

A cada quinze minutos, um belo-horizontino é assaltado

Gustavo Andrade/Odin


''Eu comecei a rezar alto e um dos bandidos colocou o cano do revólver na minha cabeça, gritando para eu calar a boca.''

A analista de marketing Natália Silva, feita refém durante um assalto no bairro Renascença


Quando você, leitor, chegar ao fim desta reportagem, mais uma pessoa terá sido assaltada em Belo Horizonte. Em média, uma ocorrência é registrada na cidade a cada quinze minutos. De acordo com os dados da Secretaria de Estado de Defesa Social, foram 25 502 roubos entre janeiro e setembro deste ano, o que significa um crescimento de 23% em relação ao mesmo período de 2013. São situações que vão desde inesperadas abordagens pela janela do carro, obrigando o motorista a entregar o celular, até traumatizantes invasões de domicílio. Histórias como a da analista de marketing Natália Silva, de 23 anos. "Nunca pensei que aconteceria comigo", diz. Em uma sexta-feira de agosto, ela e o namorado foram à casa de uma amiga, no bairro Renascença, para guardar o carro. "Naquela noite, não tinha como ele estacionar no meu prédio. Achei que seria mais seguro deixar o veículo na garagem dela", lembra. Aproveitando que o portão estava aberto, três homens armados renderam os três e os levaram para dentro da residência, onde se encontravam mais duas pessoas. Enquanto um dos assaltantes apontava a arma para os reféns e fazia ameaças, os outros retiravam eletrodomésticos, eletrônicos e tudo o que coubesse nos dois automóveis que pertenciam às vítimas. "Eu comecei a rezar alto e um deles colocou o cano do revólver na minha cabeça, gritando para eu calar a boca", conta Natália. "Eles estavam nervosos o suficiente para cometer uma bobagem a qualquer momento." Com os carros abarrotados, os bandidos foram embora e a polícia chamada, mas não a tempo de fazer algo. "A ação não durou nem uma hora, mas o trauma é para toda a vida." 

Secretário adjunto de Defesa Social, Robson Lucas Silva afirma que a explosão do número de roubos é um fenômeno nacional - e não só da capital mineira. Segundo ele, tem origem em fatores como aumento populacional, maior circulação de riquezas e intensificação do comércio ilegal de entorpecentes. "Podemos falar que 90% das ocorrências decorrem, direta ou indiretamente, do tráfico de drogas", diz Silva. O Brasil está se tornando mais violento à medida que melhoram as condições de vida da população. Essa é a constatação do sociólogo Luís Flávio Sapori, ex-secretário adjunto de Segurança Pública de Minas e ex-coordenador do Instituto Minas pela Paz. Atual coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas em Segurança Pública (Cepesp), da PUC Minas, Sapori acaba de lançar o livro Por que Cresce a Violência no Brasil?. Ele também vê no tráfico de drogas o principal vilão. "É um negócio bem estruturado que se amplia junto com a riqueza", afirma. Para o sociólogo, a saída é uma política de tolerância zero, a exemplo de iniciativas aplicadas em cidades como Nova York e Bogotá, onde pequenos delitos passaram a ser punidos com rigor. 


Victor Schwaner/Odin


''Um bandido soltou o meu cinto de segurança e outro, armado, que estava na janela, me puxou para fora do carro.''

A maquiadora Laura Starling teve seu veículo levado em um cruzamento da Avenida Antônio Carlos


Beagá chegou a experimentar um período de redução no índice de roubos, entre 2004 e 2009. Segundo especialistas, o declínio foi resultado de políticas como a integração das polícias Civil e Militar, que perdeu força nos anos seguintes. Desde 2009, a taxa saiu de 714,74 registros por grupo de 100 000 habitantes para 1 135,14, o que configura uma alta de 59%. Ocupamos o topo do ranking dos catorze municípios considerados críticos pelo governo do estado. Nessas cidades, roubos de estabelecimentos comerciais e veículos representam 13,4% e 12,1% dos casos, respectivamente. A maior parte dos roubos tem as pessoas como alvo. Em 63,7% das ocorrências registradas, os bandidos assaltaram moradores que transitavam tranquilamente pelas ruas. O designer João Célio Caneschi, de 25 anos, foi um desses. Em uma manhã de segunda-feira, em setembro, três homens o cercaram quando ele caminhava de sua casa para a academia de ginástica, no bairro Santo Antônio. "Um me imobilizou e o outro me pediu celular e dinheiro. Eu disse que não tinha nada e ele me deu um soco na cara", conta. Os assaltantes pegaram o que o rapaz trazia consigo - o telefone e a carteira - e saíram correndo. Caneschi nem registrou ocorrência. "Primeiro veio a sensação frustrante de não poder fazer nada. Depois, a raiva por terem levado algo meu." Segundo especialistas, muitos belo-horizontinos, como o designer, não procuram a polícia após assaltos. "Estimamos que, de cada dez crimes, seis não são notificados", afirma Sapori. "Há uma descrença na eficiência da polícia." Os cidadãos só costumam registrar boletins de ocorrência quando, por exemplo, precisam comunicar o roubo de um bem à seguradora.

"Toda vez que estou parada em um sinal, fico com medo do que pode acontecer", diz a maquiadora Laura Starling, de 23 anos, que foi vítima de dois assaltos em pouco mais de uma semana. Em um sábado de junho, ela se encontrava em um cruzamento da Avenida Antônio Carlos, na Pampulha, quando cinco homens chegaram abrindo as portas do seu carro, que ela havia esquecido de trancar. "Um deles soltou o meu cinto de segurança e o bandido armado, que estava na minha janela, me puxou para fora", lembra. Eles roubaram o veículo, as sacolas de supermercado e sua principal ferramenta de trabalho: uma maleta de maquiagens que valia mais de 10 000 reais. Poucos dias depois, Laura estava mais uma vez parada no trânsito quando um assaltante a ameaçou com um revólver no vidro do carro. Levou o aparelho celular. Os bandidos usam arma de fogo em 58% dos roubos cometidos, segundo dados da polícia. Ver a vida em risco sob a mira de um revólver é uma cena que o relações-pú­blicas Sérgio Faleiro Tristão, de 26 anos, não consegue esquecer. Em maio, ele estava ao volante no bairro São Bento e foi obrigado a desacelerar por causa de um automóvel parado no meio do caminho. "Do nada, dois homens armados pularam na frente do meu carro. Eles queriam a carteira, o celular e o relógio", lembra. "É revoltante ter de entregar tudo." Cinco meses depois, Tristão foi abordado quando abria a porta do carro por dois homens armados com faca. Dessa vez, ele reagiu. "Eu senti que eles iriam me empurrar para dentro do carro e me sequestrar. Mesmo com a faca na costela, resolvi empurrar o bandido e correr." É uma reação compreensível, mas nunca estimulada pelos policiais. As vítimas devem atender aos pedidos dos assaltantes e depois ligar para o telefone 190, fornecendo informações que ajudem a prendê-los.


Victor Schwaner/Odin

Viatura em ação na Praça da Savassi: policiamento ostensivo para prevenir crimes

Embora as estatísticas de roubos estejam crescendo, é preciso destacar que nem tudo é má notícia em relação à segurança pública da capital. No mesmo período em que os roubos subiram 23%, outros tipos de crime foram reduzidos - entre eles, homicídio, estupro, extorsão mediante sequestro e sequestro e cárcere privado (veja mais informações nos quadros abaixo). "É preocupante o aumento do número de roubos na capital, mas é muito positivo ver a queda dos registros de homicídios", afirma o professor Claudio Beato, coordenador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp), da Universidade Federal de Minas Gerais. O declínio nas estatísticas de alguns crimes é, certamente, uma vitória a comemorar. Para a maior parte dos moradores, contudo, a sensação de insegurança tem uma relação direta com a frequência de roubos. "É o que mais impacta a vida das pessoas", diz Sapori. Uma boa tradução desse sentimento que atinge a população está no mercado de segurança privada. De acordo com Marcos Vinícius Ferreira, sócio do grupo Esquadra, o número de contratos para serviços como vigilância eletrônica e armada, escolta e transporte de valores dobrou neste ano em relação a 2013. "Nem a crise econômica derrubou o aumento da demanda", afirma ele. "As pessoas estão com medo e dispostas a gastar para que se sintam seguras."

O secretário adjunto de Defesa Social diz que, para interromper a tendência de crescimento dos roubos em Minas, o governo investirá na compra de viaturas, na instalação de câmeras de videomonitoramento e no aumento do número de policiais civis e militares. O desafio do combate à criminalidade é gigantesco - envolve desde o policiamento preventivo nas ruas até o julgamento dos réus. "Falta estrutura em todas as etapas desse ciclo", afirma o coordenador estadual das promotorias criminais, Marcelo Mattar. Segundo ele, há hoje, em Minas, 60 000 mandados de prisão expedidos pela Justiça para a polícia cumprir. Com tantos bandidos à solta, é difícil não se tornar refém do medo.

Menos mortos
A taxa de homicídios na capital caiu 15,1% neste ano em comparação com 2013

Se, por um lado, o número de roubos disparou, o de homicídios caiu. De acordo com a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), neste ano, até setembro, foram registradas 513 mortes, contra 604 no mesmo período de 2013, o que representa uma queda de 15,1%. No estado, a redução foi menor: 1,2%. As taxas de tentativas de homicídio na capital também recuaram - baixaram de 697 para 627, ou seja, houve um declínio de 10,4%. Os especialistas veem o resultado como positivo, mas ainda preocupante. Segundo o Mapa da Violência, um estudo divulgado no início deste mês com base em dados de 2012, a situação de Belo Horizonte é pior que a do Rio de Janeiro e a de São Paulo. Enquanto aqui a taxa de homicídios é de 40,6 por 100 000 habitantes, nas capitais fluminense e paulista ela é de 21,5 e 15,4, respectivamente.

Na semana passada, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que reúne especialistas do país, lançou uma meta para mudar o triste quadro da criminalidade nacional: a redução de 5,7% de crimes a cada ano até 2030.
fonte revista veja  BH


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