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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

SUICÍDIO ENTRE POLICIAIS – REALIDADE ALARMANTE

Estresse, depressão e suicídio fazem parte do caminho percorrido por diversos policiais que não conseguem resolver as dificuldades profissionais as quais vivem diariamente.

Do aumento na quantidade de cabelos brancos a problemas de saúde mais graves como depressão, estresse e ansiedade. Estas são apenas algumas reações do corpo às pressões profissionais. Fato que se agrava assustadoramente nos últimos anos na atividade policial em todo Brasil. Embora o problema sugira urgência no enfretamento, o que se observa é um despertar tardio e prematuro para a questão.
Algumas pesquisas acadêmicas que compuseram o 9º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que aconteceu no Rio entre 28 e 31 de julho, vem gerando grandes debates sobre a onda crescente de suicídio entre policiais militares, civis e federais no país.
O Laboratório de Análise da Violência da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) constatou na pesquisaSuicídio e Risco Ocupacional na PM do Rio de Janeiro, feita com de 224 policiais militares do Rio, que 10% do grupo afirma ter tentado o suicídio e que cerca de 50 destes admitiram já ter cogitado essa possibilidade.
A pesquisa faz parte do curso de  pós-doutorado da professora Dayse Miranda. Com base nesta realidade foi lançado junto dos dados obtidos o Guia de Prevenção de Suicídio da Polícia Militar do RJ. Um manual que traz propostas de como lidar com o problema nos âmbitos individual e coletivo dentro da instituição militar.
O psiquiatra Bruno Pascale, do Hospital Municipal Pedro II, localizado no bairro de Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, explica que o suicídio é um problema que decorre de situações de estresse como as vivenciadas pelos agentes de segurança pública. Sob ‘efeito dominó’ essa condição atrelada a outros fatores culmina em transtornos como a depressão.
O médico ressalta que a classe policial figura entre os grupos de maior risco de desenvolvimento deste tipo de transtorno mental, que pode levar ao suicídio se não tratado.
– É uma doença que pode ter um cunho genético associado a fatores estressantes do ambiente como um todo tais como desemprego, frustração no trabalho, autocobrança exagerada, às vezes a longa jornada de trabalho, a relação com a família que não está boa, baixos salários, infraestrutura deficiente. É o transtorno mental que mais afasta as pessoas do trabalho e se não tratado pode vir a levar ao estado grave de suicídio!
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Estresse, ansiedade e depressão – uma receita mortal!
Durante a apuração da matéria, mais um dado apontado nas pesquisas do FBSP se mostra concreto: a dificuldade em abordar tal situação. Uma realidade que ninguém quer mencionar. Porém, o assunto está cada dia mais em voga por acometer “cerca de 10% a 20% da população mundial e brasileira”, como detalha, Pascale.
Estresse e ansiedade foram as causas do afastamento do policial Josemar (nome fictício), que após um período turbulento marcado por muitos confrontos na comunidade onde atuava, teve seu estado emocional severamente comprometido. Para agravar a situação, ele ainda chegou a sofrer ferimentos leves por estilhaços de bala. O PM explica como foi o caminho até “baixar” na psiquiatria da PMERJ.
– Troca de tiro com frequência, noites mal dormidas, o corpo começou a apresentar sintomas de estresse como dores nas costas, fadiga, perda de sono. Ignorava achando que tudo estava sob controle. Mas piorou até surgir uma ansiedade absurda. Não chegou ao ponto de síndrome do pânico, mas dava receio de ir ao trabalho. Cheguei a faltar alguns serviços e precisei ir no hospital próximo de casa sempre com pressão alta.
Ele relembra que chegou a sentir até tremores involuntários nas pálpebras, sendo então diagnosticado com estresse. Por esta razão, Josemar procurou o setor de psiquiatria da Polícia Militar e, para o seu espanto, ele encontrava na fila para o atendimento uma média de 20 policiais por dia, todos com os mesmos sintomas.
Acerca dos fatos que mais contribuíram para o declínio do seu estado de saúde , ele conta que foi o resgate de um companheiro assassinado em confronto.
– Houve um caso de uma guarnição encurralada. Havia um colega já em óbito, com três tiros de fuzil. Isso foi um fato que mexeu muito comigo. Eu tenho uma filha de nove anos que sempre pergunta se volto para casa e com o coração apertado respondo que sim, fazendo de tudo para voltar. É complicado! A tropa está doente! – analisa.
Já policial Daniel (nome fictício) conta a história de um colega de turma que passou por problemas no trabalho e se isolou. Um reflexo do estresse profissional mencionado por Pascale.
– Tenho um colega de turma que passou por problemas e se afastou de todos. Até eu fui procurá-lo e a própria família o blindou, não dava informações. Ficou quase um mês no BEP (Batalhão Especial Prisional) por conta de acusações infundadas da ex-mulher dando conta de que ele estaria envolvido com vagabundos, sem ter nada a ver! A polícia pune e prende para depois apurar. Ele ficou muito abalado psicologicamente. Eu me vejo como amanhã ou depois posso estar em situação semelhando. Ninguém está livre de nada!
Vícios: as válvulas de escape perigosas
O Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves), da Fundação Oswaldo Cruz, desenvolveu a pesquisa Saúde Mental dos Agentes de Segurança Pública, onde foram ouvidos 1.058 policiais civis e 1.108 policiais militares e o que foi constatado entre estes profissionais são reflexos negativos que contribuem para uma sabotagem da saúde psicológica deles.
– Os policiais relatam profundo sofrimento psíquico, tristeza, tremores, sentimento de inutilidade. Muitos confessam que usam drogas lícitas e às vezes ilícitas. Os policiais se sentem constrangidos em admitir isso. – Relata Patricia Constantino, pesquisadora do Claves, em entrevista ao site BBC-Brasil, replicada em diversos veículos nacionais.
Sobre recorrer às drogas lícitas ou não, como fuga da realidade, o psiquiatra Pascale confirma que muitos indivíduos, diante das dificuldades, apelam para tais caminhos, assim como curiosamente também, para o chocolate. O produto contém a substância triptofano que vira serotonina na digestão e proporciona, contudo, a sensação de alívio e bem-estar.
O policial civil Celso (nome fictício) é um exemplo destas afirmações. Após conseguir abandonar o vício do cigarro por cinco anos, o estresse e a tensão profissional o ‘empurraram’ de volta ao tabagismo. Ele conta que a recaída se deu após uma operação em que participou com intensa troca de tiros. Um colega, ao voltar para a delegacia, acendeu um cigarro ao seu lado. Ele admite:“Não teve jeito, olhei para ele, pensei um pouco e pedi um. Sucumbi!”
Apesar de tudo C. revela que ainda tenta largar o vício, porém não se intimida em atribuir a dificuldade para se distanciar do cigarro à atividade profissional que desempenha, “é muito difícil”, desabafa.
Ainda de acordo com a pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz a taxa de suicídio entre os policiais militares atinge 3,65 vezes maior que os números entre a população masculina, chegando a 7,2 vezes a da população em geral. A taxa do sofrimento psíquico alcança os patamares de 33,6% e 20,3% nas instituições policiais militar e civil respectivamente.
Realidade sombria na PF
A onda de suicídio não abala somente as entidades estaduais brasileiras, mas também,  em escala alarmante os corredores das repartições da  Polícia Federal. A Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) divulgou em junho os números apresentados em um encontro entre parlamentares e representantes de sindicatos da categoria.
De acordo matéria publicada pela entidade, foram 20 casos de suicídio nos últimos três anos. E para tornar este cenário ainda mais mórbido, também foi constatado que, atualmente, mais de 30% dos agentes federais encontram-se sob acompanhamento psiquiátrico/psicológico.
Na contramão do problema está a ínfima quantidade de especialistas disponíveis para atendimento de todo efetivo nacional: 13 psiquiatras e 14 psicólogos. O que não cobre sequer, com um profissional de cada área, todos os estados brasileiros que somam 27 unidades federativas. Os números foram apresentados pelo presidente da Fenapef, Jones Borges Leal.

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