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domingo, 23 de abril de 2017

A incompreendida abordagem policial

· José Ricardo

O Cabo Spencer e o Soldado Tandberg realizavam radiopatrulhamento rotineiro por um bairro periférico da cidade de Iômega. Quebrando a tranqüilidade, a central de comunicações pediu atenção na rede de rádio.
- Atenção todos os postos, há cerca de dez minutos, três indivíduos armados tomaram de assalto um automóvel Peugeot de cor preta. A vítima está muito assustada e não soube fornecer a placa do veículo. A suspeita é de que os infratores tenham evadido sentido a cidade de Iômega.

Poucos segundos após a transmissão da mensagem da Central, os dois policiais avistaram um Peugeot preto em deslocamento. Seria uma simples coincidência? Coincidência ou não, era dever dos policiais abordarem o automóvel; era para isso que eles eram pagos. Recuperar o veículo violentamente subtraído por indivíduos armados era a missão que deveria ser cumprida mesmo que com o sacrifício da própria vida; os policiais não iriam prevaricar. Imediatamente comunicaram o fato na rede, pediram cobertura e iniciaram o acompanhamento. Mantiveram certa distância do automóvel até a chegada do reforço. Com a presença de mais uma viatura e, conseqüentemente, com supremacia de força e maior segurança, iniciaram os procedimentos de abordagem veicular. Momento crítico, de alto risco, no qual o policial sente o organismo ser inundado por altas doses de adrenalina, elevação do batimento cardíaco, respiração acelerada, vasoconstrição... O confronto parece próximo, e o que impera é o instinto de sobrevivência. Ligaram os giroflex e as sirenes, aproximaram do automóvel com ação vigorosa e, pelo megafone da viatura, Spencer determinou:
- Abordagem policial! Motorista do Peugeot preto, pare o veículo no acostamento!
O automóvel foi diminuindo lentamente a velocidade, até parar. Os policiais desembarcaram com rapidez, assumindo posições táticas em torno das viaturas.
- Atenção ocupantes do veículo, abram os vidros e coloquem as mãos onde eu possa vê-las! - verbalizou o Cabo Spencer. Nenhum movimento, porém, ocorreu no interior do automóvel - Abram os vidros e coloquem as mãos onde eu possa vê-las! - reiterou, dessa vez falando com mais firmeza e energia.
Um cidadão, com um movimento brusco, abriu a porta do veículo, desceu, sem colocar as mãos na cabeça, e disse, com arrogância:
- Que isso! Não precisa disso, não! Duas viaturas, sirenes... Pra que isso tudo!?
- Cidadão, coloque as mãos na cabeça! Coloque as mãos na cabeça!
- Eu vou me identificar. Precisa apontar a arma pra mim, não.
A situação, crítica por natureza, ficou ainda mais tensa. Qualquer movimento suspeito e os policiais poderiam atirar em legítima defesa putativa. O cidadão não compreendia os riscos que corria e continuou insubmisso.
- Abaixem as armas que eu não sou vagabundo, não.
- Cidadão, fique calmo e coloque as mãos na cabeça, para sua própria segurança. E não faça nenhum movimento brusco.
Contrariado, o cidadão obedeceu. Agora era trazê-lo para área de segurança.
- Cidadão, caminhe em direção da minha viatura, lentamente, e com as mãos na cabeça.
- Ah, não! Vocês já estão esculachando... Eu tô com minha esposa no carro. Eu não sou bandido, não. Pára com isso. Eu sou advogado, eu sei das minhas prerrogativas e dos meus direitos.
- Cidadão, caminhe em direção da minha viatura, devagar, e com as mãos na cabeça.
Spencer evitou entrar em bate-boca com o suspeito. Este, insatisfeito e se sentindo molestado, atendeu às determinações e caminhou até perto da viatura, onde o Soldado Tandberg iniciou a busca pessoal.
- Que isto, polícia, eu vou me identificar. Vou pegar minha carteira de advogado. Não precisa disso não que eu não sou bandido.
- Continua com a mão na cabeça! Continua com a mão na cabeça! Alguém aqui tá falando que você é bandido...? Quem mais está no carro?
- Só a minha esposa. Olha os braços dela lá pra fora da janela...
As informações do suspeito pareciam consistentes e verossímeis, mas o Cabo Spencer não seria tolo de se aproximar do carro, invadindo a área de risco pelas simples declarações de um indivíduo desconhecido. Da mesma forma como fez com o motorista, determinou que a mulher desembarcasse com as mãos na cabeça. Ela obedeceu e, procurando ganhar confiança dos policiais, disse:
- Podem ficar tranqüilos. Eu sou psicóloga e sou amiga pessoal do prefeito da cidade.
- A senhora também pode ficar tranqüila. Nós somos profissionais e todos os procedimentos adotados são para sua segurança e do seu marido. Não faça nenhum movimento brusco, obedeça aos comandos verbais e não se sinta constrangida.
- Tá bom, mas não precisa apontar a arma pra mim, não.
- Senhora, eu não te conheço. Continue com as mãos na cabeça e só fale quando eu lhe perguntar.
- Aí você já está me ofendendo... Você vai me proibir de falar, é?
- Senhora, caminhe em direção da minha viatura. Se a senhora colaborar, tudo vai acabar rápido e bem.
- Tá bom, mas não precisa apontar a arma pra mim, não.
Os policiais continuaram empunhando as armas na posição de pronta resposta e, com a devida segurança e dentro das técnicas policiais, a mulher foi abordada. Em seguida, o carro foi revistado e, por fim, foi constatado que não era o automóvel tomado de assalto. Fora uma simples coincidência, mas os policias não podiam prevaricar, nem se omitir, nem menosprezar os riscos, nem desprezar a técnica.
A abordagem policial se somou a grande maioria das bem-sucedidas, mas que, por pouco, não acabou numa tragédia pela incompreensão de pessoas que clamam por segurança, mas que não querem ser incomodadas; por pessoas arrogantes, insubmissas e não-cooperativas com o trabalho policial; por pessoas que cobram proteção do Estado, mas que esquecem que segurança pública também é responsabilidade de todos.

Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.


* RETIRADO DO BLOG UNIVERSO POLICIAL (RECOMENDO)

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